T.O.C.

Mergulho mais uma vez no submundo. Quando nada mais resta a fazer, só cabe mergulhar. Para mim que sou da ação e do fazer acontecer, confesso que a passividade nunca foi confortável, porém há alguns poucos anos a venho substituindo pela rendição. Me rendo ao caos, aos conflitos e desentendimentos quando a vida começa a mostrar que qualquer mínimo movimento pode causar uma grande explosão. 

O mercúrio retrógrado chega devastando toda a possibilidade de conexão com o outro, corta todos os fios externos e internos, convida a parar. Só que eu não sei parar. É por isso que eu medito, não sou zen, não sou calma, eu medito para me parar, me observar. Não que eu já não seja naturalmente observadora, analisadora, buscadora, isso sim! Mas a observação pacífica dos acontecimentos é algo absolutamente desagradável e faz a minha mente querer pensar compulsivamente. Por isso tenho plena consciência de que parar é o que preciso fazer. Conheço muitas pessoas que precisam ser empurradas a agir, já eu preciso ser empurrada a parar. E a pausa não é só nas ações externas, se fosse assim seria fácil, mas ao contrário, muitas vezes preciso seguir me movendo externamente para só assim dar uma pausa para a mente. 

Quando a vida trava, as comunicações não fluem e as coisas ficam em aberto, penso em 1.456 possibilidades de falas, cenários e acontecimentos, várias e várias vezes. Inclusive acordo de madrugada e já começo a fazer isso, de forma automática, até escolher algum exercício de respiração e me acalmar novamente. Dentre as 1.456 possibilidades, a única que não penso é normalmente a que acontece e então eu paraliso. E essa pausa não é a que eu me referia antes, essa é a paralisação, o congelamento, que ocorre justamente porque não me pausei. Então, começo a definhar, me encolher, e agora os pensamentos são todos auto destrutivos, melancólicos, deprimentes. Rolo o feed das redes sociais para me martirizar um pouco mais e as fotos e vídeos que aparecem dão seguimento às histórias loucas inventadas pelos meus pensamentos, além de trazerem surpresas e novas histórias ainda piores. 

É aí que eu assumo: é hora de parar tudo agora e dar uma olhada no que está acontecendo no meu submundo. Para você que me lê pela primeira vez, sugiro que leia alguns textos anteriores para que não pense que eu sou completamente louca, embora isso tenha alguma verdade. Vale ressaltar que Jung fez isso a vida inteira – de ir ao submundo – escreveu centenas de livros, e por mais louco que ele fosse, hoje é considerado um dos pais da psicologia profunda. Nem preciso dizer o quanto me identifico. Mas me pergunto se ele também tinha essa tendência ao TOC (transtorno obsessivo compulsivo) e me respondo “espero que sim”. 

Enfim, me sento, respiro e após algumas técnicas de mindfulness para focar a mente, mergulho. Chegando lá a imagem é clara, estou quase afogada em um rio de lama e saio me arrastando lá de dentro, sem conseguir ficar de pé. Digo eu, mas na verdade é a minha mulher sábia. Me entristeço. A mulher sábia está cheia de lama, sem forças, afogada, perdida? Está bem que ela vive no submundo e está sempre meio desgrenhada, mas ela era a minha salvação, ela ia me dizer o que preciso fazer (ou não fazer), ela ia me impulsionar lá debaixo de volta para a superfície, como sempre fazemos, como sempre foi. “Luciana, talvez a vida não seja como sempre foi. Talvez não exista um “sempre foi”. Nada está sob controle.” Fala isso para uma pessoa metódica, que cumpre rotinas, planejamentos, horários certinhos como eu e espera para ver o que acontece. NADA ESTÁ SOB CONTROLE. Vou ter que escrever isso em todas as partes da minha casa, meu carro, meu celular, senão eu esqueço. Bem, seguimos no submundo… Como a mulher sábia não tinha condições nem de andar quanto mais de saber, fomos eu, a raiva e a princesa ajudá-la a caminhar, segurando-a pelos braços, cambaleante. Sim, são elas, minha tríade que irá resgatar a mulher sábia: eu mesma, eu-raiva e eu-princesa. 

Chegamos a uma penteadeira e a colocamos aí, um bom banho, cabelos penteados para trás, molhados e sem cachinhos, assim se vê bem seu rosto lavado. Agora o chapéu de bruxa não combina muito com essa cara arrumadinha e lhe damos uma coroa e brincos. Ela já pode voltar a ser nossa fada madrinha. Pronto, tudo organizadinho como eu gosto. Entramos no carro, eu dirijo, a raiva no carona, a princesa e a fada madrinha no banco de trás. Peraê! Me perturba essa configuração… a mulher sábia é quem deve dirigir, eu não sei o que fazer, para onde ir, vou quase batendo nos outros carros. Melhor dou o volante para a raiva que tá bufando aqui do lado. Não, tá doida, esquece! E a princesa? Fantaseando e vendo o céu azul, o príncipe no cavalo branco, rodeado de unicórnios enquanto olha pela janela… melhor não. A fada madrinha está inerte, como uma rainha sendo levada na carruagem, não ouso pedir que ela troque comigo.

Enfim, me concentro, vou ter que dar conta de toda essa gente. A verdade é que não sei para onde estamos indo, por isso me desespero. Mas agora começo a relaxar no caminho, me ajeito no banco, respiro. A fada madrinha aponta para fora, dizendo que talvez realmente estejam os unicórnios e todas rimos deslumbradas. Me rendo ao caminho, às paisagens, às curvas e ladeiras, sem destino, “nada está sob controle”, mas é preciso permanecer firme, no volante. Vou ter que bancar a mim mesma e a todas as mims, ao mesmo tempo que estou no comando, permitir que a estrada me leve. Se render não é desistir. 

Abro os olhos, me espreguiço, me levanto do meu savasana (postura de relaxamento) – em algum momento passei de sentada para deitada, não sei quando – fico um tempo com as mãos no rosto e os pensamentos estão mais soltos, sem loopings. Me pergunto quem me disse aquela agradável frase que termina com “nada está sob controle”, já que a mulher sábia – fada madrinha – não tinha forças nem para caminhar, imagina dar conselhos. Olho pro banco de trás pelo retrovisor interno com essa interrogação na cabeça, e ela pisca um olho pra mim. Então me levanto e começo a escrever.

Mais inspirações!

pt_BR