RECOMEÇAR PARA INTEGRAR

Essa é uma espécie de continuação do artigo anterior “A queda é ascensão e a sombra é luz.”

Por Lulu Cirne, 17 de Dezembro de 2024

O inconsciente desconhece o tempo da consciência. Tudo já começa a acontecer lá nas profundezas da psique muito antes de se concretizar do lado de fora. Aparece em sensações sutis, agradáveis e desagradáveis, se expressa muitas vezes no corpo físico. O insconsciente é sábio e entende dos ciclos de vida-morte-vida, já a mente resiste o tempo todo à impermanência. E é aí que o sofrimento maior é gerado, na resistência a senti-lo ou na necessidade de controlá-lo, querendo muitas vezes que passe logo.

Em momentos conturbados e de sofrimento psíquico, costumo me apegar aos segundos de lucidez, de insight, ressignificação, quando a mente me dá um espaço de calma e resiliência, pois sei que são esses ínfimos momentos que me levarão ao seguinte degrau de entendimento profundo sobre mim mesma e os movimentos da minha vida. 

Em um desses momentos, hoje durante um shavasana (relaxamento no yoga), me vi mais uma vez sendo elevada daquele poço profundo até lá em cima. Eu estava de branco desacordada e quem me elevava era outra eu, só que de negro. E então, ao chegar lá em cima me via naquela roda de mulheres, cheias de flores, velando o meu corpo vestido de branco também cheio de flores. Deste corpo surgia (brotava de dentro como no filme “A Substância”) uma terceira eu, vestida de roxo, mas com um véu branco e uma coroa. Imaculada e ao mesmo tempo terrena; pura e ao mesmo tempo raivosa; confiante e ao mesmo tempo cheia de inseguranças. Era eu mesma com uma roupa que costumo usar para trabalhar, mas tinha a coroa. Penso que talvez seja para me lembrar da minha realeza, da minha divindade ao ser humana, do meu eu sagrado e do meu eu profano. Jung diz que se Deus é tudo, ele não pode ser somente o bem, porque estaria excluindo metade dos aspectos da existência, que não são belos, são feios. 

Acho que o amor profundo, maduro e verdadeiro nasce deste lugar, quando a idealização sobre nós mesmas e sobre o outro nos decepciona, mas podemos nos sobrepor à essa decepção e transcender a necessidade egocêntrica e narcisista da eterna fantasia de um eu/outro idealizado, trazendo à tona a realidade da vida. É por isso que a psicanalista Ana Suy diz que “no melhor dos casos o amor vai nos decepcionar”, do contrário não é amor, é pura projeção e idealização, não tem solidez. A decepção é uma oportunidade, porque a verdadeira magia não está nos começos (que são em si mesmo muito importantes), mas sim nos recomeços, já que estes assumem a morte de algo que ficou para trás e está renascendo, aí mora a verdadeira transformação.

Além disso, o recomeço é um retorno, uma volta para refazer o caminho, agora com outro olhar. É se dar conta da distração e retornar, igual uma meditação, que volta a atenção para a respiração uma e outra vez nesse movimento constante. Já a visão fatalista, premeditada, precipitada da vida traz consigo uma separação, uma dualidade, assumindo que não é possível recomeçar, já foi. Essa visão ignora o potencial das crises, o espiral ascendente dos ciclos vitais, que precisam dar a volta completa e revisitar etapas anteriores para então subir ao próximo nível. Não nego que sou humanista e meu foco é no sentido, no propósito e na auto realização, que claramente não é linear.

Como terapeuta, mulher, inquieta e eterna buscadora da profundidade de todas as coisas, percebo que a mulher renasce dentro dela mesma muitas e muitas vezes e isso não necessariamente depende do que ocorre na sua vida, porém se alimenta disso, se nutre, como a loba que recolhe os ossos na escuridão, até armar um novo esqueleto*. O processo de individuação de Jung, que vai ocorrendo ao longo da vida, é inclusive um eterno retorno à essência de si mesmo, perdida ao longo do caminho devido aos traumas e aprendizados sociais, culturais, familiares. Portanto, não há exclusão do que foi ou do que está sendo, há uma integração do todo, convidando os aspectos inconscientes à se incorporarem à consciência, formando uma personalidade mais coesa, coerente e verdadeira. Contudo, é uma jornada dolorosa, com momentos de lucidez como mencionei, momentos de liberdade, expansão, mas sempre exigindo coragem para tirar a pele que está descamando e fazer aparecer a nova que já se forma por baixo dela.

Pois bem, não sei onde essa mulher de roxo com véu branco e coroa de rainha vai me levar, mas a sinto muito mais integrada que as anteriores, mais forte e mais vulnerável ao mesmo tempo, entendendo vulnerabilidade como franqueza com os próprios sentimentos. Uma mulher que em meio ao caos, a dor, a perplexidade pelas rasteiras da vida, primeiro grita, logo se ajoelha e reza, confia e ama.

*Menção ao livro “Mulheres que Correm com os Lobos” da Clarissa Pinkola Estés

Mais inspirações!

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