O amor para a “mulher de verdade”

Talvez eu esteja finalmente aprendendo sobre o amor, ou sentindo ele, não sei. Só sei que o amor tem me trazido paciência, soltura, leveza e inteireza. Não estou amando ninguém em especial de forma afetiva-sexual, e ao mesmo tempo estou amando a todos que passam por mim. Amar não tem necessariamente a ver com querer estar perto, às vezes sim, outras vezes é preciso estar longe por amor. No fundo não está relacionado com o que fazemos com este amor, mas em como o deixamos transitar por nós, envolver nosso corpo, mente, alma. Talvez seja um transbordamento dessa alma, uma expressão genuína do movimento dela. Quando me deixo envolver na energia do amor posso ver e empatizar com o sofrimento do outro, entendendo que suas ações não são contra mim, mas sim muitas vezes de um lugar de sofrimento e de desconexão com este amor. O amor é delicado, singelo, calmo, ele não grita, não é urgente, ele sabe esperar, permitir.

A primeira vez que me conectei verdadeiramente com esse amor na vida adulta acho que foi na Índia, foi quando senti que o amor é feminino, é maternal (pensando nesses aspectos como inerentes à mulheres e homens). E após tantas experiencias nesses quase 2 anos tendo retornado daquele país, começo a recordar, a deixar brotar a semente que lá plantei.

Finalmente me dou conta de quanta rigidez o meu feminino precisou acumular para sobreviver à dureza do mundo e das relações. Estou me permitindo estar mais sensível e vulnerável sem me fragilizar ou me jogar de cabeça nos meus vínculos na expectativa de ter a minha vida resolvida através de outra pessoa.

Meus vínculos de amizade agora tem tomado uma importância muito grande na minha vida e me feito reorganizar meus afetos. Porque o vínculo afetivo-sexual fica no centro da existência na nossa sociedade? Isso não é saudável, muito menos funcional. Estou neste momento na praia com mulheres incríveis trocando experiências, risadas, histórias, e me sinto apaixonada por elas, uma paixão real, viva, daquelas que o tempo parece parar para você poder sentir. 

Voltei ao laboratório fenomenológico do ser masculino, mas agora com muito mais curiosidade e deslumbramento. Uma curiosidade infantil de quem está disposta a olhar os fenômenos como se fosse a primeira vez, sem ressalvas, sem medo, apenas com a cautela justa e necessária. De repente os homens ficam mais atentos comigo, mais sensíveis, se expõe mais. Uma prova de que toda a mudança começa dentro e reverbera do lado de fora. Agora eu vejo o sofrimento deles, assim como estive todo este tempo implicada em ver, entender e acolher o meu próprio sofrimento. Tanto desejei ser vista que precisei percorrer um longo caminho de aprender a me ver para então agora poder ver o outro. 

E foi exatamente através da amizade com um homem e nossas muitas conversas profundas, que eu pude olhar com ternura e compaixão para o ser homem. Neste lugar da amizade pude me entender com o masculino dele e acho que ele com o meu feminino, estamos os dois buscando desvendar este mistério, esta dualidade eterna das relações heterossexuais. 

A verdade é que o patriarcado machucou e machuca todos nós. Os homens assumem papéis que não são reais e muito menos sustentáveis a longo prazo. Agora posso ver que toda a performance masculina esconde a dor de um homem que assim como a mulher, gostaria de ser amado da forma que ele é, cheio de imperfeições e dúvidas. Ele não quer e não pode mais esconder as próprias emoções ou explodir de raiva, enquanto esnoba e maltrata mulheres, porque isso é o que se espera dele, que seja um macho alfa. Mesmo quando são criticados por serem machistas, ainda é isso que se espera deles, que sejam mesmo machistas, pois assim são homens de verdade. Quem sabe não sou eu, por meio dessa descoberta sublime sobre o amor quem não está agora começando a se converter em uma “mulher de verdade”.

Mais inspirações!

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