CAMINHOS CRUZADOS

Vale do Pati, Dezembro 2024

Diário dividido em 4 textos, um para cada dia de trilha na Chapada Diamantina, Bahia

Por Lulu Cirne

Dia 1: Caminhos cruzados

Após uma longa e cansativa viagem de ônibus, cheguei a Palmeiras, acompanhada de uma amiga de longa data. O guia passou para nos buscar e encontramos o resto do grupo no Guiné, onde começaríamos o caminho para entrar ao Vale, no total então éramos 7 pessoas, dizem que é um número de sorte e bem aventurança. E acho que foi mesmo. 

O início da caminhada é marcado pela expectativa, o mistério e a surpresa do que vamos viver, ver e experimentar. Eu que era a única do grupo que já havia feito o Vale do Pati há anos atrás em 2017, tinha portanto agora mais expectativas internas do que externas. Vim na busca de libertar minha mente, que é em realidade a busca mais elevada de todos nós todos os dias, principalmente os que vão para uma imersão como essa. No meu caso, tenho alguma familiaridade com o entorno da natureza e o poder que ele tem de nos tirar da nossa bolha, pois cada vez que mergulho nesse contexto algo em mim se transforma. Só que o corpo físico entra no Vale logo, a cada caminhar, já a mente vai entrando aos poucos, fica presa no que deixou atrás, tudo bem, é o tempo dela. Portanto, a chuva de pensamentos invade as paisagens, mas estas são tão estonteantes que começam a ganhar a batalha, para o meu alívio. O céu está muito azul, o Sol brilhante, o caminho aberto, a mente começa a ceder a contra gosto do ego que insiste inutilmente em resolver coisas pendentes através do pensamento. 

Começamos a cruzar com pessoas que vinham descendo durante a nossa subida, fazendo o caminha de volta. Nos cumprimentamos, às vezes mais rapidamente, outras com um par de palavras ou comentários, mas o fato é que cada um segue seu caminho. Me fez pensar que assim é a vida. Quando alguém está subindo a montanha, outro alguém está descendo e então há uma interseção, um encontro, uma sinapse. Na maioria das vezes fica impossível que um dos dois mude sua própria rota pelo outro, fica injusto com quem está começando e cansativo para quem já está terminando, então o encontro se dá, a troca se estabelece ali e se desfaz. Como nos vínculos de amizade que de repente se distanciam, se transformam e eventualmente voltam a se cruzar novamente. 

O nosso grupo está coeso e ao mesmo tempo diferente no ritmo do passo de cada um, pois o ajuste de velocidade é menos daninho que o ajuste de direção. Vamos na mesma direção. Até porque quem não vai, não tem jeito, é preciso viver o processo, é preciso subir a montanha, por mais tortuoso que seja o caminho, não dá pra descer sem antes subir e viver cada etapa, é preciso transitar.

Os mirantes, a visão do vale com todas as suas montanhas, a imensidão da Chapada Diamantina e a expansão das paisagens me trazem paz e confiança no meu próprio caminho, afinal de contas a trajetória é sempre individual. Ao mesmo tempo coletiva já que todos estamos buscando algo neste andar, algo particular, naquele momento compartilhado em um caminhar grupal.

Me acostumei a viajar sozinha, morar sozinha e me virar, já há alguns anos, então desenvolvi habilidades muito especiais como por exemplo passar protetor solar nas costas sem deixar nenhum pedaço de fora. É curioso ter gente comigo, principalmente uma amiga já conhecida, ela me sugere coisas, me lembra de outras, e eu me surpreendo com a ideia de que não é uma das vozes da minha cabeça quem está me sugerindo algo, mas sim um ser externo. Aos poucos vou me abrindo e saindo do meu egocentrismo, começo a observar e a me conectar com os demais, entendendo que aquilo ali, inclusive com minha amiga, é um mero cruzamento de caminhos que logo passará, porém deixará seus ensinamentos.

Talvez o encontro mais permanente e estável deva ser comigo mesma, com o espírito de amor e esperança que vive dentro de mim. Sempre fui fiel a ele, porque ele sou eu mesma na essência, sempre me atrevi a segui-lo mesmo quando estava apavorada. Se ele vive em mim, onde quer que eu vá estará comigo, em todas as rotas e curvas do caminho, pousando no ombro de quem passa e depois voltando para dentro de mim, incansável, me ajudando em cada obstáculo, me salvando de cada queda, me elevando em cada contemplar.

Mais inspirações!

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